Análise Científica – Paisagismo de R.Burle-Marx (Parte II)

Características de desenho e projeto

A sua busca pelo fazer diferente, também refletiu nos formatos dos jardins de Burle-Marx.

Trabalhava com a perspectiva – pontos de fuga – diretamente relacionado ao alcance do campo visual, conforme o seu objetivo e da proposta. Também utilizava, quando fosse a situação, a mata ou vegetação existente.

Esse cuidado com as perspectivas foi desenvolvido do seu histórico artístico, usava as mesmas técnicas para pintar suas telas. O primor para que haja sempre apenas um ponto dominante na visual criada, e não várias, para que assim, uma não roube a cena da outra, mas sim, se complementem. É o conceito de protagonismo na paisagem.

E essa estratégia fica clara, quando Burle-Marx argumentava que não tinha planta preferida, como lembra Tabacow (Um pé de que? 2014), ele respondia com outra pergunta: “qual a nota musical que você gosta mais?”. Da mesma forma que a nota musical não faz sentido sem a composição, a planta também, ela faz sentido em relação as outras.

Formas

Quanto as forma dos Jardins de Burle-Marx, o simetrismo dos padrões franceses e português foram substituídos por formas mais suaves, curvas, ondas e formas orgânicas combinadas com algumas linhas. Algo diretamente relacionado as perspectivas, pois é a visual da descoberta: a cada curva, uma nova surpresa. Algo difícil de acontecer, se os ângulos retos predominam e direcionam a visual do jardim.

Texturas

Outra característica muito marcante, é a utilização de texturas, cores e portes diferentes para montar a imagem da paisagem. E essa tomada de decisão, também estava relacionada as épocas de floração de cada espécie.  Consequentemente, era um jardim vivo e convidativo anualmente.

Ou seja, com todos esses elementos de multi-perspectiva, multi-texturas, multi-portes e multi-florações, exige-se uma contemplação do visitante para que ele entenda e admire o jardim e o percurso, pois sempre a novidade e descoberta. E essa é a riqueza da natureza criada pelo homem para o homem, como Roberto argumentava.

A riqueza de criar combinações tão incomuns mas ao mesmo tempo belas, só foi possível em função do método de Roberto de projetar. Nas viagens ou excursões para diversos lugares do Brasil, além de coletar e catalogar novas espécies, ele via as mesmas em seu habitat e bioma natural.

Então, como entendo o processo de projetar como uma reorganização de espécies (com suas devidas características biológicas) e soluções para a devida situação, quando o projetista consegue ver e entender a sua matéria prima – a vegetação, com as mais diversas espécies do seu espaço natural, esse processo é facilitado e inspirador.

Mesmo não sendo um botânico por formação, Roberto, por sua experiência entendia profundamente de vegetação aplicada ao paisagismo, algo que fica evidente nos relatos de sua vivência.

Espécies mais usadas

Roberto se deu conta do potencial e beleza das plantas brasileiras, essas que não eram usadas no paisagismo brasileiro, no Jardim Botânico de Dahlem, em Berlim. E pensou então, porque razão as plantas como helicônias e philodendros não eram utilizadas. O estilo francês de jardim era o que predominava no período, com uso de roseiras, cravos e angélicas – espécies exóticas aos biomas brasileiros.

Então, a partir dessa conclusão, foca no paisagismo de espécies tropicais. Para isso, parte em diversas excursões na companhia de botânicos para a coleta e catalogação de novas espécies. Assim, incorporava plantas do serrado, amazonas, sertão nordestino e o que mais fosse possível. Assim os Jardins de Burle-Marx tiveram características únicas.

Para conseguir que plantas de biomas diferentes se desenvolvessem saudavelmente, Roberto fazia a aclimatação e a matrizes de multiplicação das plantas em seu viveiro, e nesse período acompanha suas características, para bem aplicar ao seus projetos quando fosse viável.

Para ver mais projetos do Roberto Burle Marx, te sugiro o ArchDaily!

Utilizava principalmente plantas das famílias Bromeliaceae, Cycadaceae, Heliconiaceae, Marantaceae, Arecaceae e Velloziaceae. Famílias que possuía maior quantidade em seu sítio, que servia como laboratório e atualmente como biblioteca para estudo para estudiosos da área.

Bromeliaceae

Exemplar de espécies da família Bromeliaceae.
Fonte: https://universoracionalista.org/wp-content/uploads/2016/10/bromeliads-781309_960_720.jpg

Cycadaceae

Exemplar de espécies da família Cycadaceae. Fonte: https://www.giovis.com/travels/07Hawaii/hawaiiflora/kokoBG/cycads71.jpg

Heliconiaceae

Marantaceae

Arecaceae

Velloziaceae

A quarta dimensão

Burle Marx entendia que o tempo – a quarta dimensão do projeto, que as plantas levam para se desenvolver, também fazia parte do projeto. É bonito ver o jardim crescendo.

Essa quarta dimensão era levada em conta na hora da proposta. Da mesma forma, o clima. Como no caso de alguns jardins propostos em Brasília, os espelhos d’água envoltos vegetação e vice-versa.

A água com finalidade de minimizar o micro o clima seco, também servia como fonte para as espécies, criando a possibilidade de pequenos maciços verdes, como se fossem oásis no cerrado.

Agora você sabe um pouco mais sobre os Jardins de Burle-Marx!

Você leu a primeira parte desse artigo? Se não, clique aqui!

Referências

FLORIANO, César. Roberto Burle Marx: Jardins do Brasil, a sua mais pura tradução. Revista Esboços, Nº 15. UFSC. 2007.

GUERRA, Abilio. José Tabacow. Entrevista, São Paulo, ano 07, n. 028.02, Vitruvius, out. 2006 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/07.028/3299>.

CAZÉ, Regina. Programa Tataré. Um pé de que? 2014. Publicado por Pindorama filmes. Disponível em https://youtu.be/Kdfi9aSsvGY. Acesso 29 jun. 2019

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